Funcionário digital: o que muda no time com a IA | EDUARDO BARCELOS - EP #07
Com Eduardo Barcelos, Co-founder — Smart.AI
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Agentes de IA nas empresas: por que o processo vem antes da tecnologia, com Eduardo Barcellos (SmartSide AI)
Episódio: #7
Convidado: Eduardo Barcellos — cofundador da SmartSide AI, startup capixaba que constrói agentes de IA para médias e grandes empresas, e fundador da Triple AI, plataforma de gestão do conhecimento corporativo com IA generativa, ativa desde 2023
Host: Rodrigo Piassi — fundador da WeRecruiter e do WeProfile.AI
Duração: 59 min · Publicado em: [data — a inserir]
Meta description (até 155 caracteres): Eduardo Barcellos, da SmartSide AI, explica como implementar agentes de IA nas empresas: processo antes da ferramenta, governança e humano no controle.
Sobre este episódio
Neste episódio do Além do Achismo, Eduardo Barcellos, cofundador da SmartSide AI, explica como implementar agentes de IA nas empresas sem transformar a tecnologia em mais uma fonte de desorganização. A tese central: agentes de IA — ou funcionários digitais — só geram resultado quando operam sobre processos mapeados, com objetivo claro, indicadores definidos, times capacitados, governança de acesso e um humano responsável pela decisão final.
O tema importa agora porque muitas empresas já liberaram assistentes de IA para os colaboradores, mas poucas medem o retorno. Para quem decide sobre pessoas, a conversa responde três questões: como o organograma muda com a IA, se ainda vale formar profissionais júnior e como separar o desempenho da pessoa do desempenho da ferramenta.
Principais conclusões
• Implementar agentes de IA sem processo estruturado acelera a desorganização da empresa em vez de resolvê-la, segundo Eduardo Barcellos.
• Projetos de IA motivados por FOMO ou hype não se sustentam; os que sobrevivem atacam um processo crítico ligado ao resultado financeiro.
• Capacitação só gera resultado quando o colaborador aplica o aprendizado a um desafio real da própria área.
• Cortar vagas de início de carreira porque um sênior com IA produz mais cria um problema de sucessão para a empresa.
• Usar muita IA não é sinal de produtividade: a métrica certa é o valor entregue em relação ao custo da ferramenta.
• Governança de IA começa por definir o que o agente faz, o que ele acessa e onde há validação humana obrigatória.
• O colaborador que combina IA, visão de negócio e curiosidade é mais valioso do que a IA sozinha ou do que o colaborador sem IA.
A conversa
O que muda quando uma empresa implementa um funcionário digital?
Rodrigo Piassi: Quando a empresa implementa um funcionário digital, o que muda na prática?
Eduardo Barcellos: O que todo empresário busca é aumento de produtividade. Mas esse é o fim. Uma empresa se torna AI-driven quando olha a IA sempre como meio, como ferramenta para buscar os seus objetivos. E, antes de tudo, ela precisa dos processos muito bem definidos. Se você não consegue descrever o job to be done, seus processos e a camada de contexto — os dados da empresa bem estruturados —, nenhuma IA vai conseguir trabalhar em cima disso.
A inteligência artificial muda o organograma das empresas?
Rodrigo Piassi: Com uso intensivo de IA, o organograma tradicional, em caixinhas por área, perde o sentido?
Eduardo Barcellos: Não muda 100%, mas na prática muda. As áreas sempre vão existir, só que um agente de IA que opera numa área em silo tem gap de informação. O primeiro passo é conectar áreas e processos. Além disso, a IA comprime a hierarquia: muitas vezes o gerente do meio sai, porque todo mundo consegue entregar bastante. E a camada de entrada — estagiários, primeiros analistas — muda muito, porque parte das atividades repetitivas a IA faz.
Se um sênior com IA faz o trabalho de vários estagiários, ainda vale contratar júnior?
Rodrigo Piassi: Tem empresa dizendo que um sênior com IA faz o trabalho de dez estagiários. Mas quando esse sênior sair, quem a empresa preparou para dar continuidade?
Eduardo Barcellos: Um sênior capacitado em IA tem, sim, ganho de produtividade exponencial. Mas estagiários que já são AI native desde o início também têm um ganho muito grande. Pode ser um contrassenso, mas é o que vejo na nossa empresa. A Biancogres, uma das líderes no setor de cerâmica e vinílicos, fez uma formação conosco para capacitar colaboradores a construir agentes de IA e focou em pessoas em início de carreira, engajadas e com visão analítica. Se você não capacita a camada júnior, o que acontece quando o sênior se aposenta ou vai para outra empresa?
Como começa um projeto de agentes de IA em uma empresa?
Rodrigo Piassi: Quando vocês entram numa empresa que quer intensificar o uso de IA, o que analisam?
Eduardo Barcellos: Começamos por um diagnóstico, um discovery, para entender onde dói de verdade — onde há muito FTE alocado em atividade repetitiva. Raramente o agente cumpre o processo de ponta a ponta. Por isso fatiamos o processo, construímos um agente para cada etapa e validamos, começando pelo fruto mais baixo da árvore, onde há um quick win que mostra valor ao gestor. No fim do dia, o empresário está olhando a última linha do balanço. Não é pílula mágica.
Por que tantos projetos de IA dão errado nas empresas?
Rodrigo Piassi: Frase sua: muitos projetos de adoção de IA dão errado porque as pessoas não entendem o que estão automatizando. Explica.
Eduardo Barcellos: Implementação de IA é top-down: o gestor tem que decidir e fomentar a cultura. Muitas empresas vão pelo FOMO, pelo hype. Algo só legal não se sustenta: botou em operação, não sobrevive ao segundo semestre. No início de 2025, a SmartSide atendia muitas clínicas com agentes SDR na frente comercial, e era comum construir o agente sem nenhuma base estruturada do processo. Isso dá ruim. Recentemente, numa grande empresa do Espírito Santo, entramos numa frente comercial em que o processo não existia — sem clareza de objetivos nem de indicadores. Se não tem processo e você quer implementar IA, você só vai gerar mais bagunça. Talvez esteja acelerando a bagunça da sua empresa.
Como preparar os colaboradores para trabalhar com agentes de IA?
Rodrigo Piassi: A empresa quer implementar, não quer perder o time, mas esquece de prepará-lo. Isso é realidade?
Eduardo Barcellos: É uma grande realidade. Primeiro, alinhar os stakeholders. É comum o CEO voltar de uma feira em São Francisco cheio de ideia; se a camada abaixo não sabe o objetivo, vai haver fricção. Segundo, capacitação — é o que coloca early adopters e retardatários na mesma página. A IA é como uma Ferrari: todo mundo tem esse carro superesportivo à disposição, mas saber pilotar é muito importante, e saber como funciona o combustível dele, que são os dados, também. No fim do dia, o maior desafio sempre está nas pessoas, não na tecnologia.
Qual é o primeiro passo com IA para uma empresa com pouco orçamento?
Rodrigo Piassi: E para uma empresa que está começando e ainda não consegue contratar uma consultoria de agentes de IA?
Eduardo Barcellos: Um caminho é usar ChatGPT, Claude, Gemini — com cuidado: em modelos gratuitos ou desconhecidos, você não sabe para onde vão seus dados. Mas a provocação é: o gestor tem que levar um desafio real para cada área. O que não falta na empresa é dor. Na primeira turma da nossa formação de black belts em IA não havia desafio definido, e a pessoa aprendia, mas não botava em prática. Hoje ensinamos ferramentas como Codex, Claude Code e n8n, e cada colaborador traz a sua dor. Tem gente que passa metade do dia fazendo triagem de e-mail. Tem analista com 90% da carga em de-para, inserção de dados em sistema, análise de planilha, geração de relatório. Tudo isso a IA faz perfeitamente.
Se a IA executa o trabalho, o que sobra para o funcionário?
Rodrigo Piassi: Se a IA analisa e executa tudo, o que eu, funcionário, vou fazer?
Eduardo Barcellos: É o medo de todo mundo. Na Grécia Antiga, os filósofos tinham tempo para pensar e provocar. O sonho é que a IA libere o ser humano para atividades intrinsecamente humanas. Eu, que não sou desenvolvedor de formação, uso agentes pessoais pelo celular: uma espécie de Chief of Staff digital que lê o Slack, resume pendências e escreve rascunhos de e-mail que eu decido se envio. Mas não dá para deixar a IA 100% automática. É o human in the loop: o critério tem que ser você, o pescoço que está na reta é o seu.
O que é governança de IA e como aplicá-la?
Rodrigo Piassi: No WeProfile.AI, o agente que conversa com o usuário aciona subagentes, e um deles verifica o nível de acesso do usuário antes de definir o quão profunda pode ser a resposta. Como você vê governança em grandes empresas?
Eduardo Barcellos: Governança começa no job to be done: o que a IA vai fazer. O segundo passo, tão importante quanto, é o que ela vai acessar e o que não vai, onde há consulta ao humano e até onde ela pode ir. Autorizar todas as APIs e integrações, dar acesso à conta bancária, embute um risco muito grande. Em casos como bancos, é preciso usar modelos locais, em máquinas proprietárias. E sempre liberar só as ferramentas estritamente necessárias e validar em sandbox antes de ir para produção. Nos treinamentos eu resumo em três Ps — problema, processos e pessoas —, mais a camada de governança.
Como medir a produtividade de quem trabalha com IA?
Rodrigo Piassi: Se todo mundo trabalha com IA, o que é o desempenho da pessoa e o que é o desempenho da IA?
Eduardo Barcellos: Surgiu o conceito de tokenmaxxing: usar o máximo de IA, queimar muitos tokens. Para mim é quase uma burrice — como dizer, no passado, que empresa eficiente é a que deixa tudo aceso. O que importa é a entrega de valor. Queimar token é fácil: você bota um agente em loop e tem uma surpresa na conta. Dar o modelo mais caro para qualquer tarefa é dar uma bazuca para matar formiga. Quando a empresa libera assinatura para todo mundo sem desafio, o OPEX sobe, mas não necessariamente o retorno. É como num jogo tipo GTA: sem missão, você fica rodando e não vai para a frente. Sem um porquê claro, talvez 90% do uso do colaborador não seja coerente com o que você espera dele.
O que não faz sentido automatizar com IA?
Rodrigo Piassi: Na WeRecruiter, contratamos sêniores, gerentes, lideranças. Acho sem sentido colocar essa turma para ser entrevistada pela IA: não tenho segurança de entregar uma indicação ao cliente com base no que a IA avaliou. Talvez eu mude de ideia em um ano, mas hoje não. Você tem algum caso assim?
Eduardo Barcellos: Um investidor com quem trabalhamos, com visão AI first, colocou IA na triagem das startups que buscam investimento e ainda está avaliando se gera o resultado esperado. Para a IA, o contexto ainda é, na maior parte, texto — e formar opinião sobre alguém envolve muito mais. Em vendas B2B, de quem tem que bater o umbigo no balcão, olho no olho: vai ter robô no futuro? Vai, mas o robô não é humano, não gera conexões. Tal qual a IA sobe, sobem as características intrinsecamente humanas. O repetitivo joga para a IA. O que é humano, deixa para o humano de verdade.
O que muda para o colaborador que passa a ter funcionários digitais?
Rodrigo Piassi: Em uma frase: o que muda para o colaborador que passa a ter funcionários digitais? Ele vai ser substituído?
Eduardo Barcellos: Ele vai ser muito mais produtivo. Se só faz atividades repetitivas, talvez seja substituído — atividade repetitiva vai ser automatizada, isso é certeza. O colaborador mais a IA é muito mais potente do que só a IA e do que um colaborador sem IA. Se ele junta a ferramenta com visão de negócio e vontade de endereçar a dor, é um colaborador de ouro. Aprender o tempo todo e ser curioso talvez seja a principal soft skill de hoje.
Conceitos citados no episódio
Agente de IA (funcionário digital) — Automação inteligente que usa um modelo de IA para executar etapas de um processo de negócio, integrada a sistemas e ferramentas da empresa. Segundo Eduardo Barcellos, o usual é um agente por etapa do processo.
Job to be done — Descrição clara da tarefa a ser realizada e do resultado esperado. Em projetos de IA, define o que o agente faz e o que pode acessar.
Human in the loop — Princípio de design em que um humano valida ou aprova as ações de um sistema de IA em pontos críticos, mantendo a responsabilidade e a decisão final com uma pessoa.
Tokenmaxxing — Prática de usar o máximo possível de IA, consumindo grande volume de tokens (a unidade de medida de uso dos modelos), como se isso fosse sinal de produtividade. Barcellos considera a métrica equivocada.
Black belt em IA — Formato de formação corporativa criado pela SmartSide AI que capacita colaboradores curiosos e analíticos, não necessariamente desenvolvedores, a construir agentes de IA para resolver um desafio real da própria área.
Perguntas frequentes
Por onde começar a implementar agentes de IA em uma empresa?
Segundo Eduardo Barcellos, cofundador da SmartSide AI, o primeiro passo é um diagnóstico que identifique processos críticos com muitas pessoas alocadas em atividades repetitivas. Em seguida, o processo é dividido em etapas e o projeto começa por aquela que gera ganho rápido e mensurável.
Por que projetos de IA falham nas empresas?
Para Eduardo Barcellos, os projetos falham principalmente quando a empresa automatiza um processo que não está estruturado, sem objetivos e indicadores claros, ou quando o projeto nasce de FOMO e hype em vez de uma dor ligada ao resultado do negócio.
A IA vai substituir os funcionários?
Na visão de Eduardo Barcellos, atividades repetitivas serão automatizadas por IA, e quem faz apenas esse tipo de tarefa corre risco de ser substituído. O colaborador que combina IA, visão de negócio e curiosidade tende a ser mais valioso do que a IA sozinha.
O que é governança de IA?
Governança de IA é o conjunto de regras que define o que um sistema de IA pode fazer, quais dados e sistemas ele acessa e onde há validação humana obrigatória. Eduardo Barcellos recomenda liberar apenas os acessos estritamente necessários e testar tudo em sandbox antes de colocar em produção.
Liberar o ChatGPT para todos os funcionários aumenta a produtividade?
Não necessariamente. Segundo Eduardo Barcellos, liberar assinaturas sem objetivo claro aumenta o custo e o risco de exposição de dados sem garantir retorno. Ele recomenda associar o uso de IA a desafios reais de cada área e medir o valor gerado em relação ao investimento.
Sobre o convidado
Eduardo Barcellos é cofundador da SmartSide AI, startup do Espírito Santo que desenvolve agentes de IA para médias e grandes empresas, com foco em back office, compras, suprimentos e comercial. Fundou em 2023 a Triple AI, plataforma de gestão do conhecimento corporativo que passou por M&A com a SmartSide. Você o encontra em smartside.ai, no LinkedIn como Eduardo Barcellos e no Instagram como @edubarcellos.ia.
Sobre o Além do Achismo
O Além do Achismo é o podcast de Rodrigo Piassi sobre Gestão de Pessoas, dados e inteligência artificial. A cada episódio, uma conversa com quem decide sobre pessoas — sempre com caso real, método e evidência no lugar do achismo. Assine a newsletter em https://www.alemdoachismo.com/alemdoachismo/newsletter