Captação de recursos para inovação22/10/2026

POR QUE INVESTIR EM IA NÃO É INOVAÇÃO? | FLAVIO AGUILAR - EP #08

Com FLAVIO AGUILAR, CEO — BBUTTON

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Convidado: Flávio Aguilar — CEO da Bbutton, consultoria de captação de recursos para inovação, aceleração de startups e inovação corporativa, com mais de R$ 250 milhões em projetos de captação elaborados; ex-diretor financeiro e de inovação, com passagem por controladoria e finanças na Fucape
Host: Rodrigo Piassi — fundador da WeRecruiter e do WeProfile.AI
Duração: 53 min · Publicado em: [data a confirmar]

Meta description (até 155 caracteres): Captação de recursos para inovação: Flávio Aguilar, CEO da Bbutton, explica FINEP a 6% + TR, garantias, Tecnova e o Fundo Soberano do ES.


Sobre este episódio

Neste episódio do Além do Achismo, Flávio Aguilar, CEO da Bbutton, explica como empresas de qualquer porte podem fazer captação de recursos para inovação por meio de crédito subsidiado da FINEP e de editais de subvenção (o antigo “fundo perdido”), como o Tecnova. A conversa cobre taxas, prazos, os 12 modelos de garantia aceitos pela FINEP, o que é e o que não é financiável, e o cenário do Espírito Santo, com a FAPES e o Fundo Soberano estadual voltado a startups.

O tema importa agora porque, com juros básicos elevados, o custo do dinheiro virou decisão estratégica. Para founders e CEOs que decidem investimentos em tecnologia, inteligência artificial e pessoas, conhecer as linhas de fomento muda a conta de qualquer projeto.


Principais conclusões

•             Para Flávio Aguilar, inovação é tudo aquilo que torna um negócio mais competitivo, ou seja, que aumenta receita ou reduz custo.

•             O dinheiro mais caro para financiar um projeto é o capital do próprio sócio; o crédito de fomento, como o da FINEP, tende a ser o mais barato.

•             Segundo Flávio, a FINEP opera crédito a cerca de 6% ao ano mais TR, com até 24 meses de carência, 72 meses de amortização e isenção de IOF.

•             A FINEP aceita 12 modelos de garantia, que podem ser combinados; garantia é um ponto sensível, mas não restritivo.

•             A FINEP não financia a compra de uma máquina, e sim o projeto que essa máquina viabiliza: um produto novo para a empresa ou uma melhoria significativa de processo.

•             O produto não precisa ser novo para o mercado, apenas novo para a empresa — como no caso de uma pedreira que captou cerca de R$ 3,6 milhões para lançar brita.

•             Empresas pequenas e sem ativos podem acessar editais de subvenção como o Tecnova, que nas últimas edições exigiu apenas seis meses de existência e movimentação financeira.

•             Investir em inteligência artificial sem objetivo claro não é inovação, é custo adicional; o que define o projeto é o impacto esperado, não a ferramenta.


A conversa

Por que inovação não é engenharia de foguete?

Rodrigo Piassi: Você costuma dizer que inovação não é engenharia de foguete. Muitas grandes empresas acham que captar recursos é coisa de startup. Como isso funciona?

Flávio Aguilar: O mercado vendeu inovação de forma mística, pouco tangível. Nos últimos anos, as empresas trataram inovação como pufe colorido, mesa de totó, programa de ideias, e isso nunca tangibilizou nada para o empresário. A definição que ele entende é esta: inovação é aquilo que torna um negócio mais competitivo. Ponto. E competitividade é aquilo que aumenta a tua receita ou abaixa o teu custo. Dito assim, todo empresário enxerga algo no próprio negócio. Entre 70% e 90% do que eu converso com empresários são projetos elegíveis; falta transformar aquilo no que os editais exigem.

Por que uma empresa consolidada deveria captar recursos de fomento?

Rodrigo Piassi: Se eu tenho 30 anos de empresa e recurso em caixa, por que buscaria dinheiro de fora?

Flávio Aguilar: As maiores empresas do Brasil se financiam com recurso subvencionado. A maior captadora da FINEP no país é a WEG, empresa familiar que, teoricamente, teria caixa para bancar tudo. A conta é de custo ponderado de capital. O dinheiro do próprio negócio, que o sócio deixa de distribuir para reinvestir, é matematicamente o mais caro. O segundo é o banco, e com a Selic a 13,75% no momento desta gravação, é quase inviável. O terceiro é o crédito de fomento, que muda completamente a conta.

Quais são as condições do financiamento da FINEP?

Rodrigo Piassi: E quais são essas condições?

Flávio Aguilar: Enquanto gravamos, a taxa da FINEP é de 6,08% ao ano mais TR, a mesma taxa que corrige a poupança, hoje em torno de 2% e em queda. Dá para captar até R$ 30 milhões, conforme o faturamento, com até 24 meses de carência, mais 72 meses para pagar e isenção de IOF. A FINEP atua com crédito subsidiado e com subvenção, o antigo fundo perdido. No crédito, empresas que faturam até R$ 300 milhões vão a um banco homologado; acima disso, é obrigatório ir direto à FINEP.

Que garantias a FINEP exige?

Rodrigo Piassi: O empresário incrédulo vai perguntar: qual garantia vão me pedir?

Flávio Aguilar: O manual da FINEP permite 12 modelos de garantia. No extremo mais brando, o aval dos sócios; no mais restritivo, um imóvel. No meio, fiança bancária, seguro, recebíveis e até parte dos equipamentos. Pela via bancária — Sicoob, Sicredi, Cresol, BTG, Bandes e outros — a garantia vira negociação comercial. Já fizemos operações só com aval e outras com garantia real. Em um caso, combinamos três: recebíveis, aval e parte de um investimento que a empresa tinha recebido. O banco pode reduzir a taxa, mas não aumentar. Garantia é um ponto sensível, mas não é restritivo.

A FINEP financia a compra de máquinas?

Rodrigo Piassi: Se eu quero comprar uma máquina nova, isso é inovação?

Flávio Aguilar: A FINEP não financia a máquina. Financia um projeto que melhora significativamente um processo ou lança um produto novo, conforme os modelos do Manual de Oslo. O produto não precisa ser novo de mercado, só novo para a empresa. Ajudamos uma pedreira a captar cerca de R$ 3,6 milhões para lançar brita. Não uma brita especial: a de pavimentar estrada. Foi financiado porque brita não era produto daquela empresa, e ela precisava de um britador que não tinha. O projeto ainda resolveu um passivo ambiental e reforçou o posicionamento regional da empresa.

Como a empresa identifica um projeto de inovação elegível?

Rodrigo Piassi: O empresário chega com o projeto pronto ou vocês ajudam a identificar?

Flávio Aguilar: Os dois. Mas nosso principal papel é fazer um diagnóstico com o empresário e a alta liderança sobre os próximos dois a quatro anos. O empresário não traz um projeto: traz uma dor, algo que viu o concorrente fazer, uma ideia maluca para reduzir custo. Também dizemos o que não encaixa. Vender em Vila Velha o mesmo que já vendo em Vitória não é inovação, é expansão de uma receita que já existe. Novas unidades e franquias só entram se houver mudança significativa de produto ou processo.

Como empresas pequenas e sem ativos podem captar recursos para inovação?

Rodrigo Piassi: Na WeRecruiter, atendemos muitas empresas de tecnologia com pouco ou nenhum ativo para dar em garantia. O que muda para elas?

Flávio Aguilar: Os dois caminhos continuam abertos. No crédito, dá para usar o aval dos sócios. Mas, para empresas menores, a subvenção pode ser mais atraente, e a maioria dos editais não exige faturamento mínimo. O Tecnova é um edital da FINEP operado pelas fundações estaduais de amparo à pesquisa — FAPES no Espírito Santo, FAPESP em São Paulo, FAPEMIG em Minas — e os projetos competem dentro de cada estado. A próxima edição deve oferecer até R$ 700 mil por projeto, com abertura prevista para janeiro ou fevereiro de 2027. Nas últimas edições, bastou ter movimentação financeira, seis meses de existência e um projeto inovador.

Por que a captação de recursos deve fazer parte do planejamento estratégico?

Rodrigo Piassi: Alguns editais têm janela de abertura, outros são contínuos. Como se organizar?

Flávio Aguilar: Editais de fluxo contínuo não têm prazo limite, têm bolso limite. Outros abrem com 45 a 60 dias para submissão. Por isso, recurso barato ou de graça precisa estar no planejamento estratégico: você não pode depender dele para crescer, mas não pode deixar de considerá-lo. Segundo nossos números, a FINEP deve distribuir quase R$ 8 bilhões este ano, e a FAPES, quase R$ 90 milhões só para empresas capixabas. A jornada exige documentação, processos organizados e, muitas vezes, parceria com ICTs, como universidades. Quem antecipa, compete melhor.

O Espírito Santo é um bom estado para captar recursos para inovação?

Rodrigo Piassi: Estamos em Vitória. As empresas daqui têm mais facilidade?

Flávio Aguilar: A FAPES é a fundação que mais distribui recurso per capita no Brasil. Vários municípios dão desconto de ISS para negócios de inovação, e no crédito temos o Sicoob, que nasceu aqui, e o Bandes, que várias vezes esgotou seu limite de distribuição. Mesmo assim, Santa Catarina capta sete vezes mais FINEP que o Espírito Santo, três vezes mais por número de empresas. Porque começou antes. O empresário capixaba é tradicional, muito familiar. Demoramos, mas estamos amadurecendo mais rápido.

O que é o Fundo Soberano do Espírito Santo?

Rodrigo Piassi: E o Fundo Soberano, é um diferencial do estado?

Flávio Aguilar: O Espírito Santo foi o primeiro estado a criar um fundo soberano com foco em inovação, formado por royalties do petróleo. Parte do dinheiro foi para um FIP, gerido por uma gestora privada contratada por licitação, com a regra de investir só em startups: são R$ 250 milhões no Funses 1. No início, faltavam startups locais prontas, e foi preciso trazer algumas de fora. Com um programa de aceleração em paralelo, várias startups capixabas que não estavam aptas há quatro anos receberam investimento nos últimos dois.

Empresa de serviço também pode captar recursos da FINEP?

Rodrigo Piassi: Até aqui falamos de produto. E empresas de serviço?

Flávio Aguilar: A própria Bbutton captou R$ 4 milhões na FINEP, recebidos em 22 de dezembro de 2025, para digitalizar o serviço e melhorar significativamente o processo. Somos cerca de 16 ou 17 pessoas, e capital intelectual tem limite de escala: sem uma camada de tecnologia, eu só cresceria colocando muita gente para dentro. Estamos criando nosso sistema de gestão e introduzindo inteligência artificial de forma segura e cadenciada. A tese mais forte hoje é serviço como software. Qualquer empresa com um back office que queira atender mais clientes ou resolver mais problemas internos pode ter um projeto elegível.

O que uma empresa perde quando não investe em inovação?

Rodrigo Piassi: O que uma empresa perde quando não inova?

Flávio Aguilar: Competitividade. Com a inteligência artificial, ficou mais fácil entender: se ele não fizer, alguém vai fazer. Ponto. Não é virar a Kodak ou a Blockbuster de uma vez — isso é o ponto final. A jornada começa com a perda de um cliente, de relevância, de deixar de ser visto como o melhor fornecedor. Se você perde competitividade sistematicamente, uma hora quebra.

Investir em inteligência artificial é inovação?

Rodrigo Piassi: Uma provocação: investir em IA, por si só, não é inovação. Muita empresa coloca IA para rodar sem saber o objetivo. Isso é custo adicional que, se der sorte, traz retorno. Você concorda?

Flávio Aguilar: Eu comparo a IA com aquela máquina do início. Não importa muito o quê; importa o para quê e os impactos. Se você não tem clareza disso, nem a máquina, nem a inteligência artificial servem para nada como projeto de inovação. Sou a favor de perder o medo e experimentar, mas, em negócios maduros, sem estrutura, você pode gastar um caminhão de dinheiro e expor informação sensível. Muitos clientes chegam querendo IA porque está difícil achar mão de obra qualificada e trabalhar a cultura. Só que os próprios projetos de inovação exigem profissionais qualificados para operar a tecnologia.


Conceitos citados no episódio

FINEP — Financiadora de Estudos e Projetos, empresa pública federal vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Financia inovação por meio de crédito com juros subsidiados e de subvenção econômica, que não precisa ser devolvida.

Subvenção econômica (antigo “fundo perdido”) — Recurso público não reembolsável concedido a empresas para projetos de inovação, normalmente via editais competitivos com regras e prazos próprios.

Custo ponderado de capital (WACC) — Média do custo das fontes de dinheiro que uma empresa usa para investir, combinando capital próprio dos sócios e capital de terceiros, como bancos e agências de fomento.

TR (Taxa Referencial) — Índice usado para corrigir a poupança e o FGTS. No crédito da FINEP, compõe a taxa final junto com os juros anuais.

Manual de Oslo — Publicação da OCDE que padroniza conceitos de inovação. Serve de referência para classificar inovação de produto e de processo em programas de fomento.

Tecnova — Edital de subvenção da FINEP operado de forma descentralizada pelas fundações estaduais de amparo à pesquisa (FAPs), em que projetos competem dentro de cada estado.


Perguntas frequentes

Empresa grande e lucrativa pode captar recursos da FINEP?

Sim. Segundo Flávio Aguilar, CEO da Bbutton, as maiores empresas do Brasil se financiam com recurso subvencionado, e a WEG é a maior captadora da FINEP no país. Para ele, usar capital próprio é a forma mais cara de financiar um projeto.

Qual é a taxa de juros do financiamento da FINEP?

De acordo com Flávio Aguilar, no momento da gravação a taxa era de cerca de 6% ao ano mais TR, com até 24 meses de carência, 72 meses para pagar e isenção de IOF. As condições mudam ao longo do tempo e devem ser confirmadas diretamente com a FINEP ou o banco homologado.

Comprar uma máquina pode ser financiado pela FINEP?

Apenas se a máquina fizer parte de um projeto de inovação. Flávio Aguilar explica que a FINEP não financia o equipamento em si, mas projetos que lancem um produto novo para a empresa ou melhorem significativamente um processo.

Uma empresa pequena, sem garantias, consegue recursos para inovação?

Sim. Segundo Flávio Aguilar, empresas sem ativos podem usar o aval dos sócios no crédito ou disputar editais de subvenção como o Tecnova, que nas últimas edições exigiu apenas seis meses de existência, movimentação financeira e um projeto inovador.

Abrir uma filial ou franquia conta como inovação para a FINEP?

Em geral, não. Para Flávio Aguilar, replicar o mesmo negócio em outra cidade é expansão de uma receita que já existe. Só seria elegível se houvesse mudança significativa de produto ou de processo.

Investir em inteligência artificial é inovação?

Não por si só. Na conversa, Rodrigo Piassi e Flávio Aguilar concordam que IA sem objetivo claro é custo adicional. Para Flávio, o que define um projeto de inovação é o impacto esperado em receita ou custo, não a ferramenta.


Sobre o convidado

Flávio Aguilar é CEO da Bbutton, consultoria de captação de recursos para inovação, aceleração de startups e inovação corporativa, com mais de R$ 250 milhões em projetos de captação elaborados. Tecnólogo em processos gerenciais, fez carreira na área financeira: foi diretor financeiro, diretor de inovação e atuou em controladoria e finanças na Fucape. [Site, Instagram e LinkedIn — a confirmar.]

Sobre o Além do Achismo

O Além do Achismo é o podcast de Rodrigo Piassi sobre Gestão de Pessoas, dados e inteligência artificial. A cada episódio, uma conversa com quem decide sobre pessoas — sempre com caso real, método e evidência no lugar do achismo. Assine a newsletter em https://www.alemdoachismo.com/alemdoachismo/newsletter


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